PORTUGAL, São João da Madeira,

02 de Abril de 2012
 


Na presente data, eu, DJ ZE LUIS, venho por este meio informar que
decidi determinar o encerramento da minha carreira de quase 30 anos como DJ.

Não existiu nenhum motivo drástico ou grave que tenha motivado esta decisão (até porque já estava a ser ponderada há algum tempo), mas sim uma opção pessoal e profissional, e que se prende essencialmente com estratégias profissionais noutros ramos de actividade e também com novas opções de vida pessoal.

Comecei a minha carreira como DJ nos finais de Julho de 1984, numa altura em que, ser DJ era realmente uma arte, um estatuto, uma vocação, e portanto apenas um grupo restrito conseguia efectivamente um lugar na cabine. Numa altura em que não existiam "escolas de dj", pelo simples facto que, ser DJ não é algo que se possa aprender ou ensinar; ou se nasce com "bass blood" ou não. Qualquer DJ de 2 ou 3 gerações como eu, assinará por baixo desta afirmação. Não havia CDs, CDJs, MP3, controladores e nem computadores! Somente pratos (gira-discos), vinil e cassetes.

Hoje os tempos são outros, e, provavelmente, já há mais "djs" do que clubes para actuar. Neste sentido, compete aos DJs que viveram a raíz da profissão, zelar para manter um estatuto de diferença, destacando-se pela qualidade, profissionalismo e irreverência.

Quem me conhece, sempre me atribuiu uma especial e rara característica: a versatilidade. Esforcei-me sempre por ter uma visão sobre os espaços onde actuei, e nunca levei “sets” já preparados, ou sequências já programadas; fiz sempre a "leitura" da casa e do público, tentando perceber o que as pessoas queriam ouvir, criando uma ligação intimista com o “party people”.

Nestes quase 30 anos, consegui concretizar (e até ultrapassar) as minhas espectativas e objectivos como DJ; editei dois CDs em formato colectânea, e mais de 20 músicas e remixes em formato digital; consegui percorrer o país e marcar presença em grandes eventos, fui entrevistado pela televisão (TVI), e por várias revistas e jornais; fui destacado em artigos (alguns internacionais), e, acima de tudo, fiz amizades por todos os espaços onde trabalhei.

Pelo meio tive grandes projectos paralelos, dos quais destaco dois; O “Movida 80” e o “Liveset Radioshow” (que conseguiu ter espaço de emissão em quase 90 rádios em todo o mundo, e durante vários anos, sendo até hoje, o programa português deste género que teve maior dimensão).

Gostaria muito de citar aqui alguns nomes de casas (clubes e bares) e pessoas (gerentes, barmans, djs, etc), mas não o vou fazer pelo simples motivo que tenho receio de me esquecer de alguem; mas essas casas e pessoas sabem muito bem que estou a referir-me a elas… OBRIGADO A TODOS(AS)!

Algumas marcaram a minha vida para sempre, e ainda hoje as considero quase da minha família…

Nestes quase 30 anos toquei e cantei, dancei e saltei, amei e chateei-me, chorei e sorri, tive alegrias e tristezas, tive noites fantásticas e outras difíceis, em algumas provavelmente bebi um pouco demais… mas cumpri sempre a minha missão até ao fim. Fui abraçado, empurrado, despenteado, aplaudido, ameaçado, beijado, tive quase ordem de prisão, fui sufocado, apalpado, levado ao colo, riscaram-me o carro, fui levado a casa, e levei outros a casa, dei autógrafos, esqueci-me do carro (ou não sabia dele), pagaram-me copos e eu ofereci outros tantos, dormi na cabine, no carro e na praia… sei lá que mais… enfim, o balanço, é excelente e vai deixar saudades!

Mas a vida é assim, e eu sempre aprendi que nos devemos retirar na altura certa, e eu creio que, para mim, esta é a altura certa.

Um dia destes, quem sabe, poderei matar saudades, mas apenas quando tiver um espaço meu; algo que ainda está nos meus planos e que espero concretizar… um dia destes…

Um milhão de abraços e beijos, e até sempre!

Não tenho palavras para agradecer...


Dj Zé Luis

(DJ desde 1984 até 2012)
 

 

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